Eu, que pensei tantas vezes que fosse queimar inteiro de amor, que tinha justamente tatuado burn, burn, burn! nas costas, contigo, cada um tatuou em um canto do corpo, porque nosso corpo é isso, somos quatro braços e um mapa de artérias, ductos, conexões. Chego em ti com meus dedos nos teus.
Sair de ti, não sei. Jamais me pergunte como.
É Kerouac, te disse, na primeira vez que te li o parágrafo junto, no meu inglês de sotaque britânico, três anos trabalhando em Londres, onde amar era normal, onde eu poderia andar contigo de mãos-dadas e todos os nossos planos de piquenique não envolveriam os gritos, as provocações, essa maneira debochada e dolorida que os brasileiros têm de nos dizer que aqui nunca vai ser nosso lugar.
People who never say a common place thing, people who burn, burn, burn! proclamava Kerouac. E no meio dessa gente, eu te encontrei. Tu me disse, naquele primeiro dia, que Foucault tinha feito uma análise burguesa heterossexual da sexualidade, que os estudos pós-coloniais não podiam se focar em análises feitas por um branco intelectualizado na França sobre a França. Me contou de Spivak e de como era necessária uma ruptura da própria cognição de conhecimento, até agora feita pelas letras, pelos livros, pelos valores de intelectuais europeizados da academia. Depois eu entendi. Na hora, estava magnetizado demais pela dança das tuas mãos enquanto discursava. Pela expressividade dos teus olhos e pela compressão perfeita dos teus lábios enquanto planejava a próxima frase. Eu sabia que tu queimava, já ali, há seis anos de hoje, eu sabia que Kerouac saberia também. Eu me inflamava junto. Eu, carvão, teus ombros. Eu, petiço, tuas pernas, Eu, álcool, teu pescoço. Era a fagulha, desde a tua primeira iconoclastia eu sabia que era fagulha que me faltava para que eu inflamasse também. Putz, eu idolatrava Foucault. Mas Kerouac não, Kerouac tu não tirou de mim, embora houvesse sempre o sarro com meu sotaque de bicha fina, como tu dizia, e eu prometia que tu ia falar assim também um dia, quando nós dois morássemos em Londres, onde, te prometi, estaríamos a salvo de tudo isso.
Então quando os três vieram caminhando na mesma calçada, não tive medo: éramos humanos na rua. Pensava em ti, que bobo, passava o dia pensando em ti, naquele sonho que tu tinha me contado que tivera, um tiro seco e milhões de pássaros coloridos que irrompiam no céu, surgiam em todas as cores e formas, e iam se afastando, se afastando, se afastando, e aí o céu ficava vazio e tu começava a chorar, até que um pássaro, avermelhado, estonteante, voltava e pousava nas tuas mãos. E assim, acordava. Acordava ao meu lado. Por tantos anos. Tantos sonos, tantos sonhos, tantos roubos de travesseiro e brigas por cobertas tinham me trazido até ali, até aquela rua, até aquela hora em que eu pensava em ti, no pássaro avermelhado e naquela pinta atrás do teu calcanhar, como eu nunca tinha visto ela?
Nem percebi quando o primeiro me chamou de viado e me deu um soco. Os pontapés que se seguiram iam quebrando fundo cada parte de mim. Riam. Gritavam. Todas as dores que eu já sentira pareciam cócegas. A dor era interminável a cada segundo. Respirar pelo nariz quebrado e pela boca esgaçada era difícil. O ar ardia para entrar nos pulmões.
Amarraram minhas mãos, como se precisasse, eu já não conseguia me movimentar. Foram atirando álcool em mim e como se divertiam! Quando o isqueiro tocou meu corpo, eu pensei que o medo ia me fazer desmaiar. Mas, infelizmente, não fez.
Eu, que ardia de amor, eu, que achava o amor queimava, descobri que ia morrer queimado de ódio. Queimado porque três garotos tinham grana dos pais e estavam entediados. No pouco de voz, eu gritava e eles entravam em êxtase: grita, viado! grita, viado! morre, viado! queima, viado. Como sempre no Brasil, eu obedeci. Eu queimei. Era brincadeira. Só podia ser brincadeira. Homofobia no Brasil sempre é brincadeira.
Nada aconteceria aos jovens, nunca aconteceu, esta semana, lembro de ter visto no Facebook, a Brigada Militar espancou um homosexual em Caxias. Imaginei que minha notícia, se existisse, seria assim: homosexual morto. Nunca li uma notícia de “heterosexual morto”. Homosexual morto, não homem homosexual morto. O jornalista que me reportaria também não me consideraria humano. Eu não era homem nas ruas, eu não era homem nos jornais, mas ali eu estava, morrendo como homem. O que te aconteceria sem mim? O que nos aconteceria, a todos nós, sem direitos?
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Muito mais incrível do que isso, Andrea Gibson: http://www.youtube.com/watch?v=F7hUrTybO2M